24 julho, 2007

Vôo JJ3054


Acontecimento não Esperado


Quando eu Marília vi. Aquela pessoa já tinha me conquistado. Foi intenso e veloz como uma águia, transformou meu interior, fez-se luz o que era trevas. Numa sintonia abundante, nos tornamos cúmplices um do outro. E assim, vivendo juntos, prisioneiros pelo amor inexplicável que sentíamos, resolvemos nos casar. Era maravilhoso e gratificante estar ao lado do Paulo. Seus gestos, suas palavras, transpareciam e soavam doce em meu ser. A cada instante que eu passava ao seu lado, era aproveitado como se fosse o último, todos os momentos unidos eram esplêndidos, cada segundo, era suficiente para se tornar prazeroso.

Porém, um dia em casa chegou após o trabalho, cabeça baixa, olhar abatido. Deitou no sofá, e ao som da vitrola antiga, ouvia uma canção com uma letra de adeus. Achei estranho, e como ele estava cansado, não arrisquei perguntar o porquê de sua tristeza... Coloquei seu prato na mesa, e o chamei para jantar. Comeu sem dizer uma palavra sequer, meus olhos nunca viram uma face tão vazia e desesperada.

Foi então que ao terminar seu jantar disse uma única frase: "Te Amo meu amor, quero que saiba que fui verdadeiro e que meu sentimento por você, é intenso... Arrependo-me unicamente por estes anos não lhe corresponder o amor que sentes por mim". Encostou a cadeira, e saiu sem dizer mais nada.

Confusa, pensei no que podia ter acontecido, mas nada em minha mente fluía. Peguei o paletó procurando o isqueiro para fumar, pois era o que restava para me acalmar. E junto ao isqueiro veio uma folha amassada, um exame do laboratório Sabin. Verifiquei, e no resultado constava: "Resultado positivo, paciente contagiado com o vírus HIV, não existe cura". Não pude me conter e dei um passo para trás, minha vista ficou turva, não enxerguei mais nada, caí e desmaiei.

Depois de um tempo acordei, minha cabeça estava doendo, com a queda machuquei. Acordei e fui ao quarto, não deu mais tempo de falar com ele, já estava adormecido sobre a cama. Não, não fui eu que o contagiei, e mais um choque me veio à tona: "Será que ele me traiu?"

Não seria bom eu perguntar naquela noite, deixei-o dormir, na manhã seguinte conversaríamos. Acordei bem cedo, o astro sol esplandecia no horizonte, no jardim, tulipas dançavam sincronizadas e o vento que passava por elas, trazia um aroma delicioso. Fui ao banheiro, lavei o rosto e escovei os dentes, ele já tinha acordado, pois sairia cedo, iria ter muito serviço em sua empresa, e a tarde viajaria para São Paulo com urgência para tratar de assuntos de vendas. Servi o café na mesa, e em desesperada agonia fui direto ao assunto.

Sua reação não foi de surpresa, mas de desespero para me explicar. Disse que antes de namorar comigo conheceu uma garota, Lenine, a qual teria se apaixonado. Era garota de programa, e os dois estavam perdidamente apaixonados. Todos os dias se encontravam e assim resolveram namorar, tinham relações constantes.

Em uma noite, não usaram a camisinha como de costume, sem pensar no perigo Lenine acabou engravidando. Depois de três meses que ela foi dar a notícia de que estava grávida, e que o filho era do Paulo. Ele ficou muito feliz, que até resolveu fazer uma festa com os amigos para comemorar. Ela, porém não mostrou a mesma felicidade que naquele dia o parceiro sentira. Certo dia chegou ao ouvido de Paulo, que Lenine teria o traído com outro, e então foi à sua procura e perguntou.

Sem surpresa nenhuma ela afirmou, e Paulo notou que Lenine não era mulher para ele. Disse que não queria saber mais dela, e que em relação ao filho, ele ajudaria no que precisasse.

Assim Paulo seguiu seu rumo, e Lenine o dela, dentro da vida de prostituta, era ali seu ganha pão, com um filho no ventre, uma hora não tinha mais condições de trabalhar, pediu ajuda aos familiares, mas apenas a prima Vivian foi quem a acolheu.

Foi então, que depois de três semanas, ele disse que me conheceu, e que nunca sentiu algo tão forte por uma pessoa. E com um telefonema de Vivian, um dia antes dele em casa chegar triste, ficou sabendo que sua ex portava o vírus HIV, e que internada estava com seus últimos dias de vida, seu filho tinha acabado de nascer com a mesma doença, mas estava bem. Lenine não disse por medo da reação de Paulo. Ele não acreditou, neste dia mesmo fez o exame, e após este dia, veio o resultado comprovando a doença. Assim, ele explicou tudo que acontecera com ele.

Despediu-se de mim, e disse que à tarde iria visitar Lenine e ver seu filho, me ofereci à ir, mas ele disse que seria rápido, e que no outro dia me levaria. Com um beijo cálido, e um "EU TE AMO" que parecia sair do coração com tanta força, foi embora.

A porta se fechou, e seu delicioso perfume suave se espalhou pela sala. Prometi para mim mesma, que a partir daquele dia, não iria me abalar perante o ocorrido, não iria jamais me entregar à tristeza, eu tinha que ser forte, iria lutar junto com ele, e vencer cada obstáculo juntos.

Horas depois ele me liga:

- Olá Amor, fui ao hospital, Lenine não está nada bem, está inconsciente, é provável que não passe de amanhã... Agora, o meu filho está bem e se parece comigo, falta escolher um nome, e juntos escolheremos. Eu e ele temos uma longa batalha pela frente, e precisaremos de sua ajuda.

- Meu Amor, eu estarei sempre ao lado de vocês, venceremos cada barreira juntos! EU TE AMO!

- Eu também, mas agora tenho que desligar, o meu vôo 3054 está para sair agora, tenho que ir... Volto só amanhã, pois será uma longa negociação. Beijos e fique com Deus.

- Beijos, eu te espero amanhã.

Naquele dia estava muito cansada e resolvi cochilar um pouco. Algumas horas depois, ainda tonta liguei a TV, e o plantão aparece com uma notícia chocante: "Avião da TAM que saiu de Porto Alegre sofre acidente em São Paulo, o vôo JJ 3054 da TAM vindo de Porto Alegre, com 174 passageiros além da tripulação, atravessou a pista do aeroporto de Congonhas, e se chocou com um hangar."

Eu não acreditei, minha vida se desmoronou naquele momento, as pernas não tinham mais forças para ficarem em pé, caí no sofá, e um filme passou pela minha mente, todos os momentos que juntos passamos, as alegrias, as brincadeiras, nossas viagens, nossas conquistas, o modo como nos amávamos nas noites de prazer, sua delicadeza ao tocar meu corpo, tudo se foi!

E hoje sem mais lágrimas para chorar, deitada no mesmo sofá, e ouvindo a mesma canção de adeus na vitrola antiga que o Paulo ouvira naquela noite, estou com a lembrança mais valiosa que me restou do meu eterno amor, Paulinho, que choraminga em meus braços.

Ana Paula Araújo




Para o final de semana: Descansar mais para começar bem a luta, segunda!


"Algum dia, um Airbus vai parar do outro lado da avenida"..

Parece que esta frase, dita a alguns meses por um piloto, se tornou realidade... ='(


Um comentário:

  1. Krk amor,
    que história hein =/

    Mto triste...

    Te amo!
    Beijos!

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Oieeee...
Neste blogspot o livre arbítrio está ativado, ok!?

Obrigada por seu comentário!
Irei retribuir o mais breve possível.