28 junho, 2007

Racismo

"O que é que a escola ensina, meu Deus?"


Era tradição nas escolas fazer-se, de acordo com a tradição religiosa, uma coroação de Nossa Senhora, no dia 31 de maio, encerrando o que chamavam o mês de Maria.

Em vez de aula, nessa data, os pais e a comunidade eram convidados a participar do evento, no qual servia-se um lanche para todos os presentes e havia muita música, apresentação dos alunos, barraquinhas, leilão de prendas, enfim, uma grande festa.

No lugar mais apropriado da escola, erguia-se o altar enfeitado de flores e motivos religiosos. No alto, ficava a imagem da Virgem a ser coroada, cercada de meninas vestidas de anjos com asinhas brancas e guirlandas.

Tudo era cuidadosamente preparado e ensaiado durante todo o mês, para que no dia da festa saísse impecável e solene.

Fazia parte dos preparativos selecionar as meninas para a coroação. Só poderiam participar as que tivessem condições de comprar os apetrechos para ser anjo: a vestimenta, a asa, a coroa, o sapato e a meia branca. Tratando-se de uma escola pública, nem todas as meninas podiam arcar com essa despesa extra.

Num dos muitos anos em que participei da preparação da festa, a diretora entrou em minha sala de aula com o objetivo de selecionar as meninas para serem anjos.

Naturalmente, algumas já tinham as roupas guardadas em casa e seus nomes eram anotados para compor o altar. Da lista, seria escolhida a mais "bela" para colocar a coroa na virgem.

"Quem tem vestimenta de anjo?" - perguntou a diretora.

Uma menina negra, bem à nossa frente, foi a primeira a levantar a mão.
A diretora continuou perguntando. Notei que ignorava a mão da menina, esticada para cima bem à sua frente. Sem perceber que era intencional, nessa época eu ainda era inocente, dirigi-me à diretora e apontei a nossa primeira candidata a anjinho, que resplandecia de alegria por saber que tinha a roupa em casa, que estaria no altar no dia da festa, junto com as colegas da escola e poderia até ser a escolhida para coroante.

Nossa dirigente máxima, que deveria ser um modelo para o corpo docente, olhou-me com olhar severo de reprovação por lhe mostrar a menina negra com as mãos levantadas, e virando-se de costas para a turma, fazendo um sinal para que eu me aproximasse, disse-me entre-dentes:

"Só serve loira de olhos azuis."

Talvez me perguntem, primeiramente, se isso é mesmo verdade. É tão inverossímel, que eu mesma me pergunto, embora tenha sido testemunha do fato. Em segundo, se estou hoje contando tudo isso, por que não fiz algo na época?

Nada do que eu possa dizer ou justificar me aplaca a consciência, mas só quem vive dentro de uma escola é capaz de entender a que ponto chega o exercício fascista do poder ali dentro.

De início, repito, eu era ingênua e a ingenuidade nos faz crédulos, dóceis, pessoas de reações lentas. É como se fossem necessários muitos anos, como disse Saint-Exupéry, para se tornar um homem.

Fiquei ali como expectadora, totalmente sem ação, enquanto a diretora procurava entre a turma meninas loiras de olhos azuis. Nessa época havia cerca de quarenta crianças nas turmas, fazendo com que a escolha fosse demorada. Até que finalmente ela se foi, com os nomes das eleitas anotados.

O que fazer com a aluna negra de mãos levantadas, sem saber que depois de tanto tempo da abolição, ainda não fora alforriada? Para a diretora, era ainda uma menina inferior à branca de olhos azuis que procurava para sua festa hipócrita.

Confrontar-se com uma cena tão cruel, num tempo em que não construímos ainda nossas defesas contra os infames ditadores de normas elitistas, é doloroso.
Lembro-me de minha reação infantil: só queria chorar.

O nó na garganta impediu-me de continuar a aula, só queria chorar em algum canto, longe de tudo que me lembrasse de que havia gente que fazia diferença entre brancos e negros, e que aquela mulher era, absurdamente, diretora de uma escola, da qual eu era professora efetiva. Com efeito, eu teria que aturar, quisesse ou não, durante minha vida profissional, uma diretora racista.

Não me lembrava de nada referente a isso nos livros que estudara no curso do magistério. Aliás, nesses livros, não consta a realidade das escolas. A instituição escolar é um dos mais acirrados problemas da nossa sociedade. Enquanto lá dentro torturam-se crianças de todas as maneiras, do lado de fora as professoras são aclamadas como maravilhas e detentoras de todo o poder de educar.

Pobres crianças! Como diz uma colega minha, das poucas que têm consciência do mal que a escola faz às crianças: "Hoje é feriado, as escolas estão fechadas; que bom, pelo menos hoje, as crianças estão em paz".
Autor Desconhecido


"As crianças estão em paz???"..

Um comentário:

  1. Absurdo =/
    Mais é a realidade que ainda vivemos, infelismente...

    Te Amo!
    Bjs!!!

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Oieeee...
Neste blogspot o livre arbítrio está ativado, ok!?

Obrigada por seu comentário!
Irei retribuir o mais breve possível.